Turismo 2013 e Desafios de 2015 – Discurso do Secretário de Estado do Turismo na BTL


Não escondemos, antes afirmamos o nosso apoio a muitas das propostas do discurso do SET, porque coincidem com boa parte do que defendemos desde há dezenas de anos.

Reconhecido isto, o essencial do que está em causa joga-se na capacidade do SET traduzir as propostas em medidas e estas em sucessos, na certeza que estes demorarão a ser reconhecidos. Neste processo damos o nosso apoio crítico a Adolfo Mesquita Nunes.

O discurso na cerimónia dos Trade Awards do Publituris foi importante e justifica que destaquemos o que nos pareceu ser mais relevante.

 

1.Uma Verdadeira Orientação Estratégica

*Uma Revolução Cultural na Secretaria de Estado do Turismo?
Em entrevista de Abril de 2013 (1), o Secretário de Estado do Turismo responde à pergunta “Os empresários gostam ou não de ter o Estado por perto?”:

-“Num sector e numa economia em que o próprio Estado habituou as pessoas a que o Estado é financiador, mecenas, licenciador, comprador, fiscalizador, regulador, não é fácil. Os empresários adaptam-se à realidade que têm. E adaptaram-se a um sistema que vivia com o Estado como motor e central. No sector hoteleiro, os grupos que estão mais sólidos são os que precisam pouco do Estado e que tiveram uma estratégia de internacionalização. Conseguiram ter uma estratégia de sucesso, apesar do peso do Estado. O Estado é sócio maioritário da vida de todas as pessoas em Portugal e podia ser um silent partner [termo tem inglês para dizer que não interfere], mas nem isso é e isso tem de acabar.”.

Nunca vimos um membro do Governo fazer um diagnóstico tão objectivo e crítico para boa parte da Indústria da Hotelaria. Destacamos a “estratégia de sucesso, apesar do peso do Estado”.

*Turismo, Alojamento Turístico e Turismo Residencial
No encadeado do discurso da BTL, surge uma Verdadeira Orientação Estratégica:

-“Eu sou o Secretário de Estado do turismo. Não sou o Secretário de Estado dos hotéis, das agências de viagens ou das empresas de animação turística embora muito os respeite, como penso que sabem.”.

Desde há mais de meio século, Portugal é um dos países em que,

-“Short-term accommodation services are considered so important for tourism that many countries consider the establishments providing them as well as those providing food and beverage services and travel agency services as constituting their whole tourism industry.” (2).

Uma das grandes orientações deste Blogue tem sido mostrar como esta política redutora é prejudicial à Economia do Turismo e ao País.

Não sabemos até onde AMN quer ir, nem até onde o deixam ir. Sabemos até onde o País precisa que vá:

-a Politica de Turismo tem de adoptar os conceitos de Turismo, Alojamento Turístico e Turismo Residencial, definidos pelas Instituições Internacionais competentes, de modo a poder facilitar e fomentar a criação de valor pela diversidade da Procura dos Modelos de Negócio na origem da Economia do Turismo (Aqui).

Quando esta decisão for implementada,

-a Politica de Turismo pode facilitar a criação de Valor por Toda a Economia do Turismo e não apenas por uma parte,

-Portugal passa a alinhar a sua Politica de Turismo com padrões definidos desde há mais de vinte anos pelas Instituições Internacionais pertinentes.

*Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia
Todas as normas internacionais sobre Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia (Balança de Pagamentos, PIB e Emprego)

-assentam nestes conceitos alargados de Turismo, Alojamento Turístico e Turismo Residencial (3).

Como já mostrámos várias vezes, a Política de Turismo vive de alimentar a contradição entre

-concentrar a sua atenção noshotéis, agências de viagens e empresas de animação turística”, ao ponto de ilegalizar o Alojamento Turístico Não Classificado,

-capturar para o seu Posicionamento o ‘peso’ do Turismo no PIB, Balança de Pagamentos e Emprego com base no conceito alargado de Turismo.

-para Posicionamento do Turismo, utilizar Indicadores (Número de Turistas, Receita de Viagens e Turismo, Peso do Turismo no PIB e Emprego criado) que integram a contribuição da Oferta de Alojamento que excluí e ilegaliza.

Dois exemplos recentes desta contradição ainda estão presentes na Conferência de Imprensa de 13 de Fevereiro:

-a Receita de Viagens e Turismo, que vai muito para além do contributo dos Turistas alojados na Hotelaria (Aqui),

-nos 14.4 milhões de Turistas em 2013 – se mantivermos o rácio de 2007, cerca de mm milhões destes Turistas escolhem alojar no Alojamento Turístico Não Classificado (4).

Em nossa opinião, durante os muito duros anos da vida do País, a Politica de Turismo não pode mais continuar a alimentar esta contradição, porque

-autolimita o seu campo de intervenção na Economia do Turismo,

-esta não realiza o potencial de criação de Valor que é o seu e de que o País precisa. 

 

2.Um Ano de Recordes (2013)

*A Visão do Secretário de Estado
Segundo AMN, face aos resultados de 2013, ”havia duas mensagens a passar:

-a primeira, a de que este tinha sido um ano de recordes; a segunda, a de que estes recordes eram da responsabilidade do sector privado.

O meu objectivo ao passar estas mensagens não foi nunca o de aproveitar politicamente os resultados.”.

O SET acrescenta:

-“o crescimento que tivemos este ano, e que foi substancial, se ficou a dever à qualidade do nosso destino, à qualidade dos vossos produtos e à qualidade do vosso serviço.”;

-“quem desvaloriza o crescimento da procura que tivemos este ano, e que foi substancial, desconhece que foi a procura que permitiu a subida dos preços que o sector tanto anseia.”.

*Conferência de Imprensa – Erro na Forma e na Substância
Muito antes de António Pires de Lima ser Ministro, o Secretário de Estado do Turismo diferencia-se por declarações inovadoras, entre as quais

-insiste sobre os resultados do Turismo serem fruto das Empresas e não do Governo,

-exclui a quase tradicional identificação dos ‘bons resultados’ com o génio político do Secretário de Estado em exercício (5).

A Conferência de Imprensa de 13 de Fevereiro

-é um erro na sua forma e marca um recuo em relação a estas declarações de AMN,

-é um erro nas mensagens sobre o Alojamento Turístico Classificado e Receita de Viagens e Turismo da Balança de Pagamentos.

Na mensagem sobre a Hotelaria, as Dormidas são de facto um recorde a valorizar, mas o Governo não pode escamotear, antes tem de explicitar e propor agir no essencial:

-os Proveitos da Hotelaria cresceram em relação a 2012, mas ainda estão ao nível de 2008, o que confirma que a Industria, na sua globalidade, ainda não recuperou da Crise de 2008/2009.

Na mensagem sobre a Receita de Viagens e Turismo, o Governo passa ao lado do essencial:

-2013 foi mais um ano de crescimento sustentado, só interrompido pela queda entre 2008/2009,

-desde 2009, a evolução da Receita é assinalável em valor e ritmo de crescimento,

-os Turistas que escolhem o Alojamento Não Classificado têm contribuído para esta evolução da Receita de Turismo.

 

3.Posicionamento do Sector

*Espaço Para Posicionar o Sector
O SET afirma:

-“quis dar ao sector espaço para se afirmar como o principal sector da nossa economia: o mais dinâmico, o mais criativo, o primeiro a contribuir para o fim da recessão.”;

-“A afirmação do sucesso de um sector é o primeiro passo para conseguir melhores condições de financiamento, melhores apoios, maior peso económico e maior relevância politica.”.

-“Quanto mais desvalorizados forem os resultados, mais eles serão desvalorizados pela banca, que vos financia e que não pretende financiar quem está em crise, pelas entidades gestoras, que decidem os fundos, e que apostam nos sectores que mais podem crescer, e pelas entidades públicas, que precisam de fortalecer os sectores que lideram porque o país muito de crescer e de crescer rapidamente.”.

AMN tem razão sobre a necessidade e utilidade de um Posicionamento positivo do Sector, mas parece não estar consciente de duas inércias:

-a de um Posicionamento light/low cost do Turismo, assente em estatísticas insuficientes, consequência da falta de Procura por uma Quantificação objectiva e profissional da Contribuição do Turismo Para a Economia – o erro de palmatória do PENT sobre o peso do Turismo no PIB é ícone desta realidade medíocre (6),

-a do montar um Painel de Indicadores da Economia do Turismo, tema de post em elaboração e a publicar antes de 19 de Março (7).

Last but not the least AMN pode ser vítima do feitiço de ‘Estatísticas de Turismo Home Made no Turismo de Portugal’ – tema para o post do dia 19.

*Benchmarking Com Outros Sectores
O SET confronta o Sector com uma realidade que nos envergonha a todos:

-“Do calçado ao vinho, da agricultura à energia, do têxtil à indústria alimentar, sectores com um peso e desempenho inferiores ao do turismo tiveram um destaque público superior e são hoje apresentados e, mais do que isso, apoiados, como sectores essenciais para a recuperação da economia.”.

Reconhecida a bondade da afirmação do SET, insistimos na nossa:

-nenhum destes sectores de actividade económica organiza uma Conferência de Imprensa como aquela que o Ministério da Economia organizou a 13 de Fevereiro (Aqui).

*Ambição da Liderança
Citamos AMN:

-“Não estou na disposição de ter um sector mais pequeno para alguns terem rendimentos maiores, nem estou na disposição de ajudar a gerar menos emprego para alguns terem mais proveitos.”;

-“O que eu quero é um sector de turismo a liderar as exportações, no crescimento do PIB, na criação de Emprego, no valor acrescentado para a economia nacional.”;

-“É esta liderança que abre as portas do financiamento, que gera investimento, que traz procura e que vos garante sustentabilidade e a liderança.”.

Não podemos estar mais de acordo, mas há dois perigos

-a falta de dados Estatísticas, que pode ser agravada por uma opção politica errada no recurso que o Ministério da Economia faça ao INE,

-a falta de apoio de parte do Sector, que vive virado para o interior e depende de relações criadas no seu seio e não com o exterior.

*Estatísticas Sobre Turismo
O SET está consciente da realidade:

-“a informação que dispomos sobre a procura é reduzida, que o tratamento da informação estatística e de planeamento de que dispomos é deficiente e que é insuficiente a recolha de informação que fazemos.”.

O SET propõe uma ruptura dramática com o passado:

-“É-me indiferente que os resultados finais destas alterações conduzam a conclusões menos optimistas do que aquelas que são retiradas dos dados de que hoje conhecemos. Não esto aqui para fingir números, estou aqui para dotar o sector de todas as ferramentas para poder crescer e é a hora de isso suceder.”.

Sem ir mais longe e deixando o assunto para o post de 19 de Março,

-os Serviços de Turismo têm uma longa tradição de utilizaçao das Estatísticas de Turismo para efeito de propaganda – da Batalha do Turismo de 1963 à actualidade recente,

-só os Arquivos revelarão quão longe os Serviços foram no pressionar o INE para que o ‘peso do Turismo no PIB’ fosse de dois dígitos (de preferência igual ou superior a 11), quando o Indicador do INE sobre esta realidade da Economia do Turismo não atinge os 4% (8).

 

4.Três Orientações Estratégicas

4.1.Liberalização

*Recusa do Protecionismo
Citamos o Secretário de Estado:

-“Nenhum sector se afirma, sobretudo no turismo, se o fecharmos à concorrência, se o protegermos da mudança, se criarmos barreiras à entrada, se procurarmos impedir a inovação.

Eu sei que isto não é a melhor mensagem para quem cá está. Mas a procura só cresce se o sector for bom. E o sector só é bom se tiver de vencer a concorrência, porque concorrência é feroz.”.

Em abstracto, estas palavras são relativamente banais. No contexto do Sector e da tradicional Relação entre Politica de Turismo e Industria da Hotelaria, fazem a diferença, são inovadoras e abrem a via para uma Indústria da Hotelaria mais competitiva.

Se pensarmos nos empresários que defenderam uma limitação/moratória à abertura de novos Hotéis, temos uma afirmação corajosa e digna de um Governante.

*Alojamento Local
Depois de lembrar que herdou um problema, o SET afirma:

-“Não é papel do Estado andar a seleccionar tipos de alojamento, muito menos quando esses tipos de alojamento existem porque a procura assim ditou.”.

-“É papel do Estado garantir que todos os tipos de alojamento têm um enquadramento legislativo adequado às suas especificidades e que concorrência entre eles se faz através do produto e não da evasão fiscal.”.

-“Não vamos travar o alojamento local, vamos travar o alojamento paralelo, não vamos proibir o alojamento local, vamos impedir a comercialização sem o devido enquadramento, não vamos impedir o alojamento local, vamos impedir que situações iguais tenham tratamentos distintos.”.

Esta posição contraria as propostas de muitos hoteleiros e até uma Proposta de Portaria elaborada pela AHP e AHRESP, cujo acordo é significativo por ser em torno de proposta proteccionista de interesses instalados.

AMN insiste apenas na fuga ao fisco e ignora dois dos desafios que enfrenta.

*Os Dois Desafios
A identificação do Alojamento Turístico Não Classificado (9) implica que

-não é possível legislar sobre Alojamento Local sem integrar o Turismo Residencial na sua definição abrangente (Aqui),

-a legislação sobre Turismo Residencial é necessariamente mais ampla, importante e difícil do que a que pode ser aprovada sobre Alojamento Local.

A Politica de Turismo enfrenta um Desafio enorme:

-por um lado, não pode considerar o “alojamento local/alojamento paralelo como um problema de concorrência desleal, baseada na evasão fiscal como vantagem competitiva” (10), ou imaginar que o Alojamento Não Classificado é assunto para a ASAE punir a não aplicação de legislação inaplicável,

-por outro, nas mais adversas condições do Mercado, tem de resolver as dificuldades da Integração do Alojamento Turístico Não Classificado (mais concretamente, do Turismo Residencial) na Politica de Turismo, dificuldades estas varridas para debaixo do tapete ao longo de décadas.

 

4.2.Financiamento

*Quadro Comunitário 2014/2020
Citamos palavras de AMN:

-“quanto ao novo quadro comunitário, estamos a assegurar que o sector é considerado na definição dos futuros apoios”.

-“É que também aqui o sector tem um papel pela frente que é o de demonstrar o uso que pretende dar aos fundos”

-para além da Requalificação da oferta, “os fundos que o sector reclama são mais substanciais, pelo que é necessário um exercício de reflexão sobre s utilizações para os próximos anos, que convinha fazer.”.

Podemos discordar da orientação geral e da alocação de verbas, mas Luís Patrão fez obra com o Polo de Competitividade Turismo 2015, ao garantir verbas significativas para o Turismo. Em 2008/2009, a participação da CTP foi minimalista e até incompatível com a lógica comunitária de privilegiar o sector privado.

Em 2014, com novos actores e num contexto diferente, Secretaria de Estado, Turismo de Portugal e CTP estão obrigados a fazer melhor e com uma mais activa participação da CTP. 

 

4.3.Promoção

*Desafio a Empresários e Empresas
AMN disse ao Sector e mantém que:

-“existe um deficit de participação e financiamento dos privados em matéria de promoção ao nível nacional. Ela existe a nível regional, todos vivem felizes com isso, mas não existe a nível nacional.”;

-“as restrições orçamentais a que estamos sujeitos e a existência do novo quadro comunitário empurram o sector para a necessidade de organizar para, com autonomia mas com o apoio do Estado, conseguir aumentar as verbas para a promoção.”;

-“os outros sectores da economia, do calçado ao vinho, da agricultura à industria alimentar, estão já muito à frente nesta matéria” , tendo criado suportes administrativos “alguns deles dispondo de valores superiores à verbas que o Turismo de Portugal dispõe”;

-“é minha função contribuir para, com o sector privado, dotar o turismo de uma estrutura, seja ela qual for, capaz de somar ou multiplicar verbas, como os outros sectores têm.”.

Este é tema a analisar na Série de posts sobre ‘Marca de Destinos Turísticos e Marketing & Vendas da Oferta’ – brevemente num Blogue perto de si.

 

A Bem da Nação

Albufeira 14 de Março de 2014

Sérgio Palma Brito

 

Notas
(1)Entrevista do SET ao Sol, em 9 de Abril de 2013.

(2)Ver International Recommendations for Tourism Statistics 2008, United Nations, Department of Economic and Social Affairs Statistics Division e UNWTO (United Nations World Tourism Organization), New York, 2010 – Ponto 6.22 (Aqui).

(3)Os leitores mais interessados podem consultar o Relatório com acesso pelo post Quantificar a Contribuição do Turismo Para a Economia (Aqui).

(4)O número de 14.4 milhões de Turistas, apresentado pelo Presidente do Turismo de Portugal é analisado no post sobre Estatísticas de Turismo, a publicar até ao dia 19.

(5)Ver o detalhe no Post Resultados do Turismo em 2013 – Politica e Realidade.

(6)Em 2007, o Plano Estratégico Nacional de Turismo (PENT) é ícone desta conjugação, ao afirmar:

-“As receitas de Turismo representam 6,3 mil milhões de euros, correspondendo a 11% do PIB e apresentam uma tendência crescente.” (Ministério da Economia e Inovação, Plano Estratégico Nacional de Turismo, para o desenvolvimento do Turismo em Portugal, PENT – 2005/2015, p.17).

Ver o post “O peso do Turismo no PIB” – a Feira, os Factos e a Contradição (Aqui).

(7)Ver um embrião no Post “Notas Sobre um Painel de Indicadores da Economia do Turismo (2)” (Aqui).

(8)Referimos o Valor Acrescentado Gerado Pelo Turismo – Ver Relatório da Nota (2).

(9)Ver segundo Post da série Alojamento Turístico Não Classificado no Após Crise de 2008/2009, a publicar brevemente.

(10)Documento da Secretaria de Estado do Turismo de Setembro de 2013.

 

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