Quem exerce poder na gestão da TAP? São onze contra onze, mas no fim ganha o chinês

Vimos em post anterior (aqui) como a administração (não executiva) da TAP está limitada na influência que pode ter na gestão efectiva da empresa (privada a 100%). Mas afinal, quem, do lado accionista, tem poder sobre a gestão da TAP?

David Neeleman é o estratega e o criativo. O hub para rotas entre Europa e América do Norte é o melhor exemplo deste poder. Tem experiência empresarial na aviação de entre as melhores do mundo. A estratégia é ele!

Humberto Pedrosa tem o poder da sua personalidade de calma/forte e da ‘ligação com Portugal’, um mundo que conhece bem. Quem fez o que HP fez … só pode ser bom.

Fernando Pinto continua a ser o melhor CEO que a TAP pode ter, pela experiência acumulada em lidar com accionistas pouco correntes. Está condenado a apresentar resultados positivos … fora o custo do fuel.

Lacerda Machado é o único administrador não executivo que pode exercer poder, dadas a sua capacidade de negociador, conhecimento da TAP e ligação ao accionista estado português politico partidário.

Dito isto, um outro parceiro pode vir a ser o mais importante. Para além de accionista como os outros, o grupo HNA surge como financiador e … quem financia manda. São onze contra onze, mas no fim ganha o chinês.

*O accionista chinês

Em Novembro de 2015, o grupo chinês HNA adquire 24% do capital da Azul, a companhia aérea brasileira fundada por David Neeleman. Desde então a aquisição da TAP por David Neeleman arrasta consigo a possibilidade de Lisboa ser a opção da HNA para as rotas para a América do Sul.

Esta possibilidade e o simples bom senso levam DN a cancelar a aquisição dos Airbus A350 por aviões mais adequados ao hub de Lisboa para a América do Sul e, inovação estratégica de Neeleman, para a América do Norte.

Ainda hoje no Jornal de Negócios, Fernando Pinto fala de: “capacidade de capital” para “investimentos adicionais”, mais do que do code share com a companhia aérea do parceiro chinês:

-“Eles têm uma capacidade de capital muito grande e isso para nós é uma tranquilidade. Se for necessário investimentos adicionais eles têm forma de ter acesso a capital. E na parte estratégica nós vamos começar a receber agora os voos a partir de Julho, vamos poder fazer ‘code-share’ e é um mercado totalmente novo para nós.” (1).

*Injecção de capital – perspectiva inicial

Voltemos a Junho 2015. Na primeira conferência de imprensa do consórcio então comprador de 100% do capital da TAP e segundo o Observador,

-“a dupla Neeleman/Pedrosa promete investir, pelo menos, 600 milhões de euros. Este montante inclui a recapitalização da TAP, no valor de 338 milhões de euros, e o financiamento à compra de 53 novos aviões, que oscilará entre os 250 e os 300 milhões de euros. O investimento poderá mesmo ser superior, e chegar aos 800 milhões de euros, admitem os investidores.” (2).

Esta afirmação de capacidade financeira é feita no contexto da aquisição da maioria do capital da TAP prevista na privatização pelo governo PSD/CDS.

*Injecção de capital – o accionista chinês

Meses depois, e em entrevista ao Publituris e já no contexto da reversão da privatização (3), interrogado sobre “Quanto dinheiro vai ser preciso?”, DN responde:

-“Muito. Até 300 milhões de euros. […] O capital que colocámos na empresa não será suficiente para fazermos tudo o que temos de fazer para criar uma nova TAP para o futuro.”.

Sobre “Se não é suficiente, como vão ter esse capital?”, DN responde:

-“Temos um sócio, que é a HNA, vamos discutindo com ele a melhor forma de podermos fazer esta restruturação.”.

Ficamos sem saber se esta verba é só para recapitalizar a empresa ou se também é para a renovação da frota, e sem saber se a proposta inicial cai com a reversão da privatização.

Fica clara a ideia que o investidor será a HNA e que a HNA será uma fonte de poder determinante.


A Bem da Nação

Lisboa 14 Junho 2017

Sérgio Palma Brito

Notas

(1)Ver 2017.06.14 Jornal de Negócios

(2)Ver 2015.06.24 Observador


(3)Publituris de 17 Março 2017

A gestão da TAP é privada, a administração é publica/privada e pouco/nada manda

Muitas das notícias sobre a administração da TAP ignoram o essencial :

-a gestão da TAP é privada e a administração é publica/privada.

O governo insiste em não divulgar os documentos sobre o acordo de reversão da privatização, o que viola todas as regras da transparência da coisa pública.

Felizmente para nós, David Neleman fala da boca para fora. Retemos o essencial das suas declarações em entrevista ao Publituris no início de 2017:

-”se me perguntar se era o que eu sonhava quando, em conjunto com o meu sócio HP, vencemos a privatização da TAP, a minha resposta sincera é que nunca poderia imaginar tal alteração e não a desejava.

Mas a vida é o que é e temos de nos saber ajustar às suas mudanças” […]

-“Aceitámos negociar e estabelecer um novo modelo com este Governo e, hoje, estamos confortáveis com o acordo a que chegámos”,

-“Na negociação, estabelecemos três pressupostos sem os quais não pretendíamos continuar, mas felizmente foi possível serem satisfeitos.”,

-“Concordámos que o Estado reforçasse a sua participação social desde que a Atlantic Gateway pudesse gerir a TAP sem interferências políticas – a comissão executiva ser exclusivamente privada.”,

-“o plano estratégico definido por nós, e com o qual vencemos a privatização fosse aceite pelo novo Governo”,

-“Os nossos direitos económicos [superiores à percentagem de capital] ficassem salvaguardados.”,

-“o Governo nos ajudasse na melhoria das condições financeiras existentes para a TAP”.

-“Com estes pressupostos garantidos e assentes num acordo de accionistas com o Governo que nos protege de alterações e interferências nestes domínios, foi possível continuar este projecto tão aliciante para nós e sobretudo para Portugal.”.

Os administradores vão “administrar” no quadro de um acordo em que a gestão é privada e que exclui interferências políticas na gestão da TAP.


A Bem da Nação

Lisboa 13 de Junho de 2013

Sérgio Palma Brito


Turismo, transporte aéreo e território em Portugal Continental

Na deslocação a Portugal o turista compra mix de turismo, transporte aéreo e território. Neste mix, a capacidade de atrair turistas depende da oferta (hotéis, restaurantes e outros), território (Lisboa, Porto, Algarve e outros) e sua promoção. Em contexto de excesso de oferta e concorrência aberta, nenhuma companhia aérea deixa de criar ou abandona rota rentável ou mantém rota deficitária.

Entre 2001/13, aeroportos de Lisboa e Porto crescem à média anual de 512k e 277k passageiros – entre 2013/16, é de 2.147k e 1.002k. Lisboa cresce quase tanto em três anos como nos treze anteriores. Entre 2001/15 Faro cresce à média anual de 101k passageiros - em 2016 é de 1.194k. O aeroporto de Lisboa já bloqueia o crescimento do turismo, mas não há problemas no Porto e Faro.
Passageiros oriundos da Europa são 99.9% em Faro, 96.8% no Porto e 81.8% em Lisboa, aqui mais passageiros dos hubs da Europa. No futuro previsível, diversificação de mercados intercontinentais é exclusivo de Lisboa.

Dez países-origem em Lisboa, seis no Porto e quatro em Faro representam 80% do tráfego. Reino Unido, França, Portugal, Alemanha, Espanha, Suíça, Holanda, Itália, Brasil e Bélgica geram 81.4% do tráfego dos três aeroportos. Em cada aeroporto, ‘diversificar mercados’ deve ser confrontado com ‘intensificar presença em mercados chave’.

Em 2016, TAP, quatro low cost (Ryanair, Easyjet, Transavia e Vueling) e sete full service (Air France, KLM, British Airways, Iberia, Luftahsa, SWISS e Brussels) geraram 80% do tráfego total dos três aeroportos. Entre 2001/16, TAP cresce cinco milhões e meio passageiros, as quatro low cost quinze milhões e meio e as sete full service meio milhão. As low cost são e serão o principal dinamizador de crescimento.

Em 2016, a TAP tem 48.8% de parte mercado em Lisboa, 18.2% no Porto e 2.6% em Faro. Entre 2001/16, o tráfego de Lisboa cresce 140.0% e a TAP 104.4%, o do Porto cresce 238.4% e TAP 12.7%. Em Lisboa, a performance da TAP é muito importante pela base e hub (este com cerca de 2.8 milhões de passageiros), no Porto é modesta e no Algarve irrelevante. No futuro previsível a realidade será esta.

Quando a capacidade de atracção de turismo/destino não é suficiente, pode haver apoio público/privado a companhias aéreas. Implica lidar com grandes empresas e passa por avaliação rigorosa da relação entre turismo/destino e estratégia e dinâmica da companhia. Em 2016, a Ryanair atinge 2.6 milhões de passageiros em Lisboa pela capacidade de atracção da oferta e destino e sem apoio publico. Operacionalizar apoio público exige trabalho em rede (Turismo de Portugal, ANA e privados), profissionalismo de key account management e de programas plurianuais de marketing & vendas da oferta privada. Neste campo há muito a fazer.

Estas são seis macrotendências do próximo futuro, mas haverá sempre empresas e pessoas a fazer diferente.

Sérgio Palma Brito, autor do relatório Turismo e Transporte Aéreo em Portugal

NOTA


Este texto foi publicado no Publituris. Se trabalha no turismo, a leitura do Pubituris é obrigatória para conhecer o que se passa. Se não trabalha, pode ler aqui o nosso artigo. 

O Perfil do Turista que Visita o Algarve – observações críticas

O estudo sobre O Perfil do Turista que Visita o Algarve assenta num inquérito a 4.205 turistas durante dois períodos: Julho e Agosto (2.652 turistas), e Setembro e Outubro de 2016 (1.643 turistas). Analisamos a versão final do “Relatório síntese que espelha a realidade do turismo na região do Algarve por segmentos de turistas, períodos e zonas” (1).

No documento publicado, não há indicação de unidade de investigação ou ensino e de Bibliografia nem lista de instituições e pessoas consultadas. O texto parece ser da responsabilidade exclusiva da Professora Antónia Correia e do Professor Paulo Águas - Equipa responsável da Universidade do Algarve pela coordenação científica e técnica do projecto proposto pela Região de Turismo do Algarve.


1.Objectivos do Estudo, macro quantificação e segmentação

*Objectivos do Estudo

O Relatório Final não inclui um texto da Entidade Regional de Turismo do Algarve que, entre outros, explicite o objectivo que pretende atingir com a elaboração do Estudo. A iniciativa da ERTA é meritória e, em si, justifica elogio.

O Relatório explicita os objectivos do Estudo em três ocasiões:

-Sumário Executivo: “O estudo do perfil do turista que visita o Algarve tem como principal objectivo perceber a essência do turismo na região.” (p.11),

-Metodologia do Estudo, “Este relatório tem como principal objectivo conhecer e compreender características, preferências e comportamentos do turista que visitou o Algarve em 2016. (p.13),

-Ojectivos e diagrama metodológico (Capítulo I – Metodologia) detalha seis “Objectivos específicos” com base em “segmentação de mercado assente em critérios motivacionais, psicográficos, de satisfação e lealdade para com o destino, uma vez que se percepciona uma forte fidelização dos turistas que visitam a região.” (p. 15).

Estes objecttivos são:

-Estipular diferentes variáveis motivacionais, psicográficas, de satisfação e lealdade,

-Identificar diferentes segmentos de mercado a partir de critérios de segmentação definidos, e com base na dicotomia “visitante de primeira vez” e “visitante de repetição”,

-Determinar os níveis de satisfação e fidelização dos diferentes segmentos turísticos identificados,

-Aferir acerca do peso dos diferentes segmentos turísticos identificados pelo estudo em termos da sua importância relativa para a região,

-Traçar as implicações estratégicas dos diferentes segmentos turísticos identificados pelo estudo para o futuro da competitividade do Algarve enquanto destino turístico,

-Caracterizar a interactividade do turista que visita o Algarve com as redes sociais.

Em nossa opinião,

-oprincipal objectivo” ser “perceber a essência do turismo na região” é questionável em si, mas sobretudo é incompatível com as limitações do Inquérito em que o Estudo assenta,

-o objectivo de “conhecer e compreender” é mais do que actual, mas gostaríamos de um mais modesto “contribuir para conhecer e compreender”, porque do Inquérito podemos quando muito esperar um contributo para conhecer e compreender,

-o essencial do estudo parece estar nos seis “objectivos específicos”, mas a segmentação adoptada (dois macro segmentos, seis países de residência e três áreas de destino) pode questionar a amostra ser suficiente e dá origem a excesso de informação que confunde o leitor – quando se trabalha para suporte à decisão, a informação entregue deve ser hierarquizada por importância e não longa e prolixa.

*Macro quantificação existente informação do Inquérito

Com a excepção dos dois inquéritos do INE que nos faltam (2), dispomos de algum acervo estatístico sobre o turismo do Algarve:

-Passageiros desembarcados no aeroporto de Faro por País de origem (ANA)

-Aeroporto de Faro nas Estatísticas de Transportes e Comunicações (INE),

-dois inquéritos nas Estatísticas do Turismo (INE): o agora denominado Inquérito à Permanência de Hóspedes na Hotelaria e Outros Alojamentos e Inquérito às Deslocações dos Residentes.

Em várias situações, a informação quantitativa que o Estudo explicita está ligada à macro informação estatística existente, sem que esta esteja claramente identificada e com possível confusão pelo leitor.

*Segmentação do mercado

Se bem percebemos, a segmentação de mercado que mais interessa aos autores e que para eles diferencia e justifica o Estudo assenta em “critérios motivacionais, psicográficos, de satisfação e lealdade para com o destino, uma vez que se percepciona uma forte fidelização dos turistas que visitam a região.” (p.15).

Dito isto, o Estudo assenta em duas opções que, em nossa opinião, comprometem a apresentação dos resultados:

-segmentação dos turistas em Turistas tradicionais e Turistas residenciais,

-o capítulo fundamental sobre a Visita ao Algarve (p.23) não segmentar a informação por turistas Residentes e Não residentes em Portugal.

Este comprometer dos resultados é reforçado pela omissão da opção do cliente final (personagem mais importante em toda esta história) entre package holiday e independent travel, que é estruturante na formação da procura/oferta de turismo do Algarve (3).


2.Turistas tradicionais e residenciais – questionar e alternativa

*Segmentação por Turistas tradicionais e Turistas residenciais

Da Metodologia do Estudo, citamos:

-Tendo em conta as realidades turísticas da região, abordam-se dois tipos de turistas: o turista tradicional e o turista residencial.

Entende-se por Turista Tradicional aquele que utiliza as formas de alojamento tradicionais. Por sua vez, os Turistas Residenciais são todos os que se alojam em casa própria, casa de familiares e amigos e os que recorrem a arrendamentos privados” (pp. 13/14).

Esta segmentação do mercado corresponde a uma divisão das modalidades de Alojamento Turístico que os turistas escolhem. É o caso quando o texto refere, entre outros, “Os Britânicos alojados em turismo tradicional” (p. 100).

*Segmentação mais adequada à realidade

A segmentação que utilizamos e nos parece ser mais adequada às “realidades turísticas da região” assenta em três procuras de famílias (4).

A procura que mobiliza mais turistas é por estadia em hospedagem mercantil, em estabelecimento hoteleiro ou não, ou unidade dispersa de alojamento em meio urbano, de resort ou rural.

A procura por investimento em casa de férias (para combinação de utilização própria e rendimento, e valorização a prazo na revenda) situa-se na intersecção de investimento imobiliário e financeiro, com utilização turística da residência secundária pelo próprio em hospedagem gratuita ou mercantil quando a residência secundária é arrendada a turistas. Para efeito das deslocações turísticas aos Algarve gera as dos turistas que alojam em “habitação própria”, nos termos do INE, na “holiday home” do mercado e na “imobiliária” da linguagem rasca sobre o turismo do Algarve.

A terceira procura é por Visitas a Familiares e Amigos, tem importância menor mas crescente, por estar ligada à mobilidade de pessoas no espaço europeu (imigrantes no Algarve e emigrantes do Algarve em Portugal e na Europa). Esta procura utiliza sobretudo, mas não só, o Alojamento gratuito por familiares e amigos (5).

Esta segmentação segue o comportamento das pessoas e encaixa nas recomendações internacionais sobre estatísticas de turismo, como definidas por United Nations e UNWTO, New York,2010 e endossadas por Eurostat e OCDE (6). No Inquérito Inquérito às Deslocações dos Residentes o INE utiliza esta tipologia em relação na repartição de todos os turistas por “Meio de alojamento” de que dá a lista: Estabelecimentos hoteleiros e similares, Apartamentos/casas arrendadas, Quartos arrendados em casas particulares, residência secundária (inclui habitação própria) Alojamento fornecido gratuitamente por familiares/amigos e Outro alojamento privado.

*Cadeias valor independentes/interligadas e concorrência/sinergia

Cada uma das procuras da segmentação que utilizamos dá origem a uma cadeia de valor independente mas interligada com as outras duas, em concorrência ou sinergia. O conjunto das três cadeias de valor está na origem da formação da Economia turístico residencial do Algarve.

A procura por estadia em hospedagem mercantil
-está na origem da cadeia de valor da Industria da hotelaria, com as suas 110 mil camas em 2015,

-por via do arrendamento da residência secundária de utilização turística remunera o investimento contribui para a valorização do alojamento adquirido.

A procura por investimento em casa de férias

-gera a cadeia de valor formada pelas actividades da imobiliária turística: promoção e vendas, administração, exploração e revendas,

-financia o investimento na indústria do golfe e das marinas que por sua vez valorizam a casa de férias e atraem o investimento na Hotelaria,

-é a mola real da formação dos grandes espaços do turismo no Algarve, de que são exemplo Vilamoura e Quinta do Lago (7).

Estimamos que, em 2011, haja no Algarve pelo menos 125.000 residências secundárias de utilização turística. Mais residências secundárias do que camas na Hotelaria.


3.A Visita ao Algarve: residentes e não residentes em Portugal

*Um turismo e duas procuras

A procura por turismo do Algarve integra dois grandes segmentos substancialmente diferentes: residente e não residentes em Portugal. Este não foi o entendimento dos autores que

-no capítulo fundamental sobre A visita ao Algarve (capítulo II) amalgamam estas duas realidades,

-remetem os turistas residentes em Portugal para o Capítulo III, a par dos residentes em França, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Espanha e os evitáveis “Outros países”.

A título de exemplo, nas respostas à pergunta sobre Transporte utilizado para chegar ao Algarve (figura 2.8) temos o total de avião e carro próprio, quando a realidade é o avião dominar de muito longe na procura de não residentes e o carro próprio da de residentes. Não entendemos o interesse do número global. Esta avaliação pode ser feita dezenas de vezes ao longo do Estudo.

*Racionalizar evidência e intuição

A segmentação da procura por turismo do Algarve entre residentes e não residentes é evidente e intuitiva.

A racionalização da diferença assenta em factores variados:

-rendimento disponível,

-meio de transporte utilizado,

-distribuição no marketing operacional,

-alojamento utilizado,

-last but not the least, facilidade na deslocação.

*Opção do Office of National Statistics do Reino Unido

Ao longo dos anos, o ONSS publica os Travel Trends que é uma publicação de referência. Nela encontramos uma clara separação entre

-Overseas residents' visits to the UK,

-UK residents' visits abroad.

É evidente que que este e outros argumentos no mesmo sentido não proíbem os autores do Estudo amalgamarem residentes e não residentes em deslocação turística no Algarve. Mas são argumentos de peso para quem, como nós, contesta a opção dos autores por esta diminuir o interesse do Estudo.


4.Package holiday e independent travel – impossível omissão

*Ausência incompreensível e fatal – o package holiday

O modelo de negócio do package holiday

-é determinante para a formação da procura/oferta pelo turismo no Algarve até ao virar do milénio e na formação da Bacia Turística Alargada do Mediterrâneo – não é coisa pouca,

-depois, continua a ser importante porque resiste à afirmação do independent travel com a Transformação estrutural do mercado turístico na Europa iniciada na década de 1990,

-apesar da maior atracção do independent travel junto da procura, parece vir a ser muito relevante no futuro previsível –a maneira como o package holiday recupera a partir de 2010 é um caso sério (8).

Algo é certo

-não compreendemos que o Estudo omita referências ao package holiday,

-esta a omissão do package holiday compromete em muito o “principal objectivo [do Estudo] conhecer e compreender características, preferências e comportamentos do turista que visitou o Algarve em 2016”.

*Separar reserva de alojamento/transporte e omitir pakage holiday

O Estudo separa

-Meio de Reserva de Alojamento (figura 2.8),

-Reserva de Transporte para chegar ao Algarve (figura 2.9).

Esta opção do Estudo assenta no unbundling do package holiday e não avalia a importância da opção de “reserva de package holiday”.

A título de exemplo, o International Passenger Survey do Reino Unido quantifica as deslocações por motivo principal de Holiday (Lazer, recreio e férias do INE) e acrescenta sempre “of wich Inclusive Tour”, com IT a  ser identificado com package holiday.

*Mercado do Reino Unido

No primeiro tema, sobre os “Os Britânicos no Algarve” e da Caracterização da Visita ao Algarve, citamos:

-“A grande maioria reserva online (60%) ou em agências de viagens (25%). As plataformas mais recorrentes são o Booking.com (46%) ou a HomeAway/OwnersDirect (11%) ou outras plataformas (27%).” (p.96).

Não entendemos como é possível

-descrever “reserva” sem explicitar package holiday ou o unbundling de alojamento e avião,

-listar portais de bed banks [o leitor menos atento não deve ler bad bank] e omitir operadores domo TUI, Thomas Cook, Jet2.com e outros,

-no ponto sobre Turista tradicional (p.100) omitir a opção entre package holiday ou independent travel.


5.Nota final

Não pretendemos avaliar Estudo de cujas opções estruturais discordamos e consideramos como não adequadas à realidade da procura/oferta, o que compromete a utilidade que o estudo teria para nós.

Sobre a escolha dos seis objectivos específicos (p.15), não temos formação e informação que permita avaliar

-a sua razoabilidade substancial no caso de uma área turística com a extensão, diversidade e governação como o Algarve,

-o seu interesse para Politica, Administração, Iniciativa Privada e Opinião Pública que parecem ser os destinatários finais do Estudo.


A Bem da Nação

Lisboa 20 de Abril de 2017

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)O Relatório é publicado sob a chancela de Turismo do Algarve e Universidade do Algarve, mas é omisso omisso sobre a relação entre as duas instituições que está na sua origem. Disponível nsite institucional: http://www.turismodoalgarve.pt
E acesso direto ao PDF: http://bit.ly/2nksclI

(2) A macro informação estatística da procura/oferta de turismo do Algarve sofre com a supressão, em 2008, de dois inquéritos nacionais que o INE deixa de realizar:

-Inquérito aos Gastos Turísticos Internacionais,

-Inquérito aos Movimentos de Pessoas nas Fronteiras.

(3)Entre outros, ver o recente Relatório sobre Transporte Aéreo e Turismo em Portugal. Os cinco volumes estão disponíveis em http: http://www.ciitt.ualg.pt/

ou

I Parte – Da década 1950 à transformação do mercado europeu dos anos noventa

II Parte – Indústrias europeias do transporte aéreo

III Parte – Tráfego aéreo no total dos três aeroportos (Lisboa, Porto e Faro) – continentes, países e empresas

IV Parte – Passageiros nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro – continentes, países e empresas

V Parte – Procura/oferta de turismo e intervenção pública - Inclui Anexo - Package holiday e independent travel no Algarve (da década de 1990 à actualidade)

(4)No Blogue http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/ há vários posts sobre o assunto

(5)Ver

-ex-residentes no Algarve, emigrados no estrangeiro ou no resto do País,

-Familiares e Amigos de portugueses e estrangeiros que imigraram para o Algarve ou que no Algarve têm Residência Secundária de utilização turística.

Sem falsa modéstia, citamos livro de que somos autor:

-“Em 1981, residem no Algarve 20.590 naturais do Alentejo, 10.896 das Ex-Colónias, 9.855 da Área de Metropolitana de Lisboa e 5.041 do Estrangeiro, (Gaspar, 1987: 37); o Algarve é, depois da área de Lisboa e Setúbal, “a região com menor percentagem de população autóctone (82.5%)” e “ à sua escala, é a única região que tende a evidenciar uma dinâmica positiva, aumentando o saldo positivo dos movimentos internos, a que se vêm juntar quantitativos relativamente importantes de retornados, tanto da Europa como dos países africanos de expressão portuguesa.”. (p.105)”.

Em Sérgio Palma Brito, Território e Turismo no Algarve, Colibri 2009, disponível em

(6) A segmentação que utilizamos encaixa nas International Recommendations for Tourism Statistics 2008, United Nations e UNWTO, New York, 2010 e todo o conjunto de trabalhos em que se inserem.

(7)Ver Território e Turismo no Algarve da Nota (5).


(8)Ver ONS Travel Trends e vários posts no blogue http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/

Uma pergunta sobre a greve da vigilância e segurança privada dos aeroportos nacionais

O Sindicato dos Trabalhadores da Aviação Civil (SITAVA) anuncia uma greve “parcial dos trabalhadores de empresas de vigilância e segurança privada dos aeroportos nacionais” para os dias quentes das férias da Páscoa (1).

Para compreender o que está em causa, recuamos à greve que o Sitava anunciou para os dias quentes de Natal e Ano Novo de 2016.

*Setembro 2016: redução de custos até 2020 (€150/200milhões)

Antes, temos de recuar a Outubro 2016, quando a TAP apresenta oProject RISE: Transforming TAP into a more efficient and agile flag airline carrier”. 
Citamos duas orientações:

-“para ser sustentável a longo prazo, a companhia aérea terá de cortar custos em 150 a 200 milhões de euros até 2020.”,

-"Não há uma agenda escondida. Não há despedimentos ou cortes salariais, o que há é crescimento.” (2).

Em 2016 a TAP tem lucro líquido de €33,5milhões, mas economiza 200,5 milhões em combustível (3). Pior, David Neeleman reconhece que a companhia aérea aguenta enquanto o barril de combustível estiver “abaixo de €50”. A TAP está à mercê da subida do preço do petróleo, o que evidencia a importância de diminuir custos (4).

Entre os custos a reduzir estão os de Assistência em Terra, serviços prestados pela Groundforce, desde há anos detida a 50,1% por privados e 49,9% pela TAP. Esta empresa nasce da autonomização de um departamento da TAP, tem historial atribulado, ainda mantém algum do regime de trabalho da TAP, depois de cortes significativos sem os quais não seria viável.

*Natal 2006 – a greve do SITAVA

O Sitava anuncia greve para Natal/Ano Novo de 2016. Segundo o Expresso, “depois de contactos entre o gabinete do primeiro-ministro e a direcção da CGTP, onde está integrado o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos”.

O sindicato quer que “o contrato que a TAP tem com os serviços de handling prestados pela Groundforce seja renovado em Junho”. Segundo um sindicalista “Assim que assuma o seu lugar como accionista maioritário da TAP poderá faze-lo, e assim dar as garantias de que a empresa continuará com a sua estrutura e com os postos de trabalho” (5). E a greve é desconvocada.

Por outras palavras, uma interferência politica do accionista estado português politico partidário a travar a redução de custos proposto pela Comissão Executiva a agir no quadro do acordo accionista [ver a seguir].

*Informação (possível) sobre o acordo accionista Estado/Atlantic Gateway

É claro que o Sitava já obteve o que queria para proteger a Groundforce da fatal redução de custos e agora volta à carga com a vigilância e segurança privada dos aeroportos nacionais.

Isto até seria normal dentro da anormalidade de greves que fazem reféns os utilizadores de serviços públicos ou equiparados, como é o caso. Acontece que pode haver algo de grave nos bastidores.

Em entrevista recente ao Publituris (6), David Neeleman afirma o que já adivinhávamos:

-”se me perguntar se era o que eu sonhava quando, em conjunto com o meu sócio HP, vencemos a privatização da TAP, a minha resposta sincera é que nunca poderia imaginar tal alteração e não a desejava.
Mas a vida é o que é e temos de nos saber ajustar às suas mudanças” […]

-“Aceitámos negociar e estabelecer um novo modelo com este Governo e, hoje, estamos confortáveis com o acordo a que chegámos”,

-“Na negociação, estabelecemos três pressupostos sem os quais não pretendíamos continuar, mas felizmente foi possível serem satisfeitos.”,

-“Concordámos que o Estado reforçasse a sua participação social desde que a Atlantic Gateway pudesse gerir a TAP sem interferências políticas – a comissão executiva ser exclusivamente privada.”,

-“o plano estratégico definido por nós, e com o qual vencemos a privatização fosse aceite pelo novo Governo”,

-“Os nossos direitos económicos [superiores à percentagem de capital] ficassem salvaguardados.”,

-“o Governo nos ajudasse na melhoria das condições financeiras existentes para a TAP”.

-“Com estes pressupostos garantidos e assentes num acordo de accionistas com o Governo que nos protege de alterações e interferências nestes domínios, foi possível continuar este projecto tão aliciante para nós e sobretudo para Portugal.”.

*Perante a falta de informação, a pergunta legítima

Perante a incapacidade do regulador ANAC, a nova estrutura accionista da TAP mantém a política de informação pública parcelar e eufórica do ‘povo’ (sobre rotas, records mensais de passageiros e similares) e de não divulgação sistemática da informação institucional que se exige a uma grande empresa.

O único Relatório 2016 que a TAP publica até agora refere tudo o que há de importante, mas omite o “Project RISE: Transforming TAP into a more efficient and agile flag airline carrier” –

Este é um projecto da Comissão Executiva, a tal que David Neeleman refere como trabalhando sem “interferências políticas” e “ser exclusivamente privada”.

A pergunta legítima é:
-depois do acordo accionista resistir à pressão política de Rui Moreira sobre as rotas que a TAP cancela, está ou não o governo a ir longe demais com as garantias que há meses deu ao Sitava?

Vozes de burro não chegam ao céu, pelo que não teremos resposta a esta pergunta.


A Bem da Nação

Lisboa 12 Abril 2017

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)Ver 2017.04.12 Jornal de Negócios Greve de segurança nos aeroportos começou hoje

(2) Ver
-2016.10.04 Fernando Pinto anuncia plano de redução de custos da TAP em 150 milhões de euros
-2016.10.04 Afinal, não era imaginação. TAP quer mesmo cortar 150 milhões em custos

(3)Ver Grupo TAP, TAP – Transportes Aéreos Portugueses, SGPS, S.A., RELATÓRIO DE GESTÃO (PRINCIPAIS FACTOS) E CONTAS DO EXERCÍCIO (Consolidação)

(4)Ver 2016.09.27 TAP quer cortar custos pela eficiência sem despedimentos 27.09.2016 22h46

(5)Ver 2016.12.26 Intervenção do Governo faz cancelar greve nos aeroportos


(6)Publituris (17 Março 2017)